Trechos literários extraordinários

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Mensagem por Alquimista em 22/11/2017, 02:28


Diante da lei

Por Franz Kafka (*)

Diante da lei está um porteiro. Um homem do campo chega a esse porteiro e pede para entrar na lei. Mas o porteiro diz que agora não pode permitir-lhe a entrada. O homem do campo reflete e depois pergunta se então não pode entrar mais tarde.

- É possível - diz o porteiro - mas agora não.

Uma vez que a porta da lei continua como sempre aberta e o porteiro se põe de lado o homem se inclina para olhar o interior através da porta. Quando nota isso o porteiro ri e diz:

- Se o atrai tanto, tente entrar apesar da minha proibição. Mas veja bem: eu sou poderoso. E sou apenas o último dos porteiros. De sala para sala porém existem porteiros cada um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu posso suportar a simples visão do terceiro.

O homem do campo não esperava tais dificuldades: a lei deve ser acessível a todos e a qualquer hora, pensa ele; agora, no entanto, ao examinar mais de perto o porteiro, com o seu casaco de pele, o grande nariz pontudo, a longa barba tártara, rala e preta, ele decide que é melhor aguardar até receber a permissão de entrada. O porteiro lhe dá um banquinho e deixa-o sentar-se ao lado da porta.

Ali fica sentado dias e anos. Ele faz muitas tentativas para ser admitido e cansa o porteiro com os seus pedidos. De vez em quando o porteiro submete o homem a pequenos interrogatórios, pergunta-lhe a respeito da sua terra natal e de muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que os grandes senhores fazem, e para concluir repete-lhe sempre que ainda não pode deixá-lo entrar. O homem, que havia se equipado com muitas coisas para a viagem, emprega tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Com efeito, este aceita tudo, mas sempre dizendo:

- Eu só aceito para você não julgar que deixou de fazer alguma coisa.

Durante todos esses anos o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros e este primeiro parece-lhe o único obstáculo para a entrada na lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta e desconsiderada o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo. Torna-se infantil e uma vez que, por estudar o porteiro anos a fio, ficou conhecendo até as pulgas da sua gola de pele, pede a estas que o ajudem a fazê-lo mudar de opinião.

Finalmente sua vista enfraquece e ele não sabe se de fato está ficando mais escuro em torno ou se apenas os olhos o enganam. Não obstante reconhece agora no escuro um brilho que irrompe inextinguível da porta da lei. Mas já não tem mais muito tempo de vida. Antes de morrer, todas as experiências daquele tempo convergem na sua cabeça para uma pergunta que até então não havia feito ao porteiro. Faz-lhe um aceno para que se aproxime, pois não pode mais endireitar o corpo enrijecido. O porteiro precisa curvar-se profundamente até ele, já que a diferença de altura mudou muito em detrimento do homem:

- O que é que você ainda quer saber? pergunta o porteiro. Você é insaciável.

- Todos aspiram à lei - diz o homem. Como se explica que em tantos anos ninguém além de mim pediu para entrar?

O porteiro percebe que o homem já está no fim e para ainda alcançar sua audição em declínio ele berra:

- Aqui ninguém mais podia ser admitido, pois esta entrada estava destinada só a você. Agora eu vou embora e fecho-a.


(*) O escritor tcheco Franz Kafka viveu entre 1883 e 1924); o conto “Diante da Lei” é de 1919. Do livro Um Médico Rural (Contos). São Paulo, Editora Brasiliense, 1991.


Última edição por Alquimista em 28/3/2018, 14:23, editado 2 vez(es)

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Mensagem por Alquimista em 22/11/2017, 14:55


O Príncipe

Por Nicolau Maquiavel (1469 - 1527)


CAPÍTULO XVII

DA CRUELDADE E DA PIEDADE; SE É MELHOR SER AMADO QUE TEMIDO, OU ANTES TEMIDO QUE AMADO

(DE CRUDELITATE ET PIETATE; ET AN SIT MELIUS AMARI QUAM TIMERI, VEL E CONTRA)


Reportando-me às outras qualidades já referidas, digo que cada príncipe deve desejar ser tido como piedoso e não como cruel: não obstante isso, deve ter o cuidado de não usar mal essa piedade. César Bórgia era considerado cruel; entretanto, essa sua crueldade tinha recuperado a Romanha, logrando uní-la e pô-la em paz e em lealdade. O que, se bem considerado for, mostrará ter sido ele muito mais piedoso do que o povo florentino, o qual, para fugir à pecha de cruel, deixou que Pistóia fosse destruída. Um príncipe não deve, pois, temer a má fama de cruel, desde que por ela mantenha seus súditos unidos e leais, pois que, com mui poucos exemplos, ele será mais piedoso do que aqueles que, por excessiva piedade, deixam acontecer as desordens das quais resultam assassínios ou rapinagens: porque estes costumam prejudicar a comunidade inteira, enquanto aquelas execuções que emanam do príncipe atingem apenas um indivíduo. E, dentre todos os príncipes, é ao novo que se torna impossível fugir à pecha de cruel, visto serem os Estados novos cheios de perigos. Diz Virgílio, pela boca de Dido:

Res dura,et regni novitas me talia cogunt
moliri, et late fines custode tueri.

O príncipe, contudo, deve ser lento no crer e no agir, não se alarmar por si mesmo e proceder por forma equilibrada, com prudência e humanidade, buscando evitar que a excessiva confiança o torne incauto e a demasiada desconfiança o faça intolerável.

Nasce daí uma questão: se é melhor ser amado que temido ou o contrário. A resposta é de que seria necessário ser uma coisa e outra; mas, como é difícil reuni-las, em tendo que faltar uma das duas é muito mais seguro ser temido do que amado. Isso porque dos homens pode-se dizer, geralmente, que são ingratos, volúveis, simuladores, tementes do perigo, ambiciosos de ganho; e, enquanto lhes fizeres bem, são todos teus, oferecem-te o próprio sangue, os bens, a vida, os filhos, desde que, como se disse acima, a necessidade esteja longe de ti; quando esta se avizinha, porém, revoltam-se. E o príncipe que confiou inteiramente em suas palavras, encontrando-se destituído de outros meios de defesa, está perdido: as amizades que se adquirem por dinheiro, e não pela grandeza e nobreza de alma, são compradas mas com elas não se pode contar e, no momento oportuno, não se torna possível utilizá-las. E os homens têm menos escrúpulo em ofender a alguém que se faça amar do que a quem se faça temer, posto que a amizade é mantida por um vínculo de obrigação que, por serem os homens maus, é quebrado em cada oportunidade que a eles convenha; mas o temor é mantido pelo receio de castigo que jamais se abandona.

Deve o príncipe, não obstante, fazer-se temer de forma que, se não conquistar o amor, fuja ao ódio, mesmo porque podem muito bem coexistir o ser temido e o não ser odiado: isso conseguirá sempre que se abstenha de tomar os bens e as mulheres de seus cidadãos e de seus súditos e, em se lhe tornando necessário derramar o sangue de alguém, faça-o quando existir conveniente justificativa e causa manifesta. Deve, sobretudo, abster-se dos bens alheios, posto que os homens esquecem mais rapidamente a morte do pai do que a perda do patrimônio. Além disso, nunca faltam motivos para justificar as expropriações, e aquele que começa a viver de rapinagem sempre encontra razões para apossar-se dos bens alheios, ao passo que as razões para o derramamento de sangue são mais raras e esgotam-se mais depressa.

Mas quando o príncipe está à frente de seus exércitos e tem sob seu comando uma multidão de soldados, então é de todo necessário não se importar com a fama de cruel, eis que, sem ela, jamais se conservará exército unido e disposto a alguma empresa. Dentre as admiráveis ações de Aníbal, menciona-se esta: tendo um exército imenso, constituído de homens de inúmeras raças, conduzido a batalhar em terras alheias, nunca surgiu qualquer dissensão entre eles ou contra o príncipe, tanto na má como na boa fortuna. Isso não pode resultar de outra coisa senão daquela sua desumana crueldade que, aliada às suas infinitas virtudes, o tornou sempre venerado e terrível no conceito de seus soldados; sem aquela crueldade, as virtudes não lhe teriam bastado para surtir tal efeito e, todavia, escritores nisto pouco ponderados, admiram, de um lado, essa sua atuação e, de outro, condenam a principal causa da mesma.

Para prova de que, realmente, as outras suas virtudes não seriam bastantes, pode-se considerar o caso de Cipião, homem dos mais notáveis não somente nos seus tempos mas também na memória de todos os fatos conhecidos, cujos exércitos se revoltaram na Espanha em consequência de sua excessiva piedade, pois que havia concedido aos seus soldados mais liberdades do que convinha à disciplina militar. Tal fato foi-lhe censurado no Senado por Fábio Máximo, o qual chamou-o de corruptor da milícia romana. Os locrenses, tendo sido arruinados e abatidos por um legado de Cipião, não foram por ele vingados, nem a insolência daquele legado foi reprimida, resultando tudo isso de sua natureza fácil; tanto assim que, querendo alguém desculpá-lo perante o Senado, disse haver muitos homens que melhor sabiam não errar do que corrigir os erros. Essa sua natureza teria com o tempo sacrificado a fama e a glória de Cipião, tivesse ele perseverado no comando; mas, vivendo sob o governo do Senado, esta sua prejudicial qualidade não só desapareceu, como lhe resultou em glória.

Concluo, pois, voltando à questão de ser temido e amado, que um príncipe sábio, amando os homens como a eles agrada e sendo por eles temido como deseja, deve apoiar-se naquilo que é seu e não no que é dos outros; deve apenas empenhar-se em fugir ao ódio, como foi dito.

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Mensagem por Alquimista em 28/3/2018, 14:20


Hamlet

William Shakespeare (1564 - 1616)


Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre
Em nosso espírito sofrer pedras e setas
Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,
Ou insurgir-nos contra um mar de provações
E em luta pôr-lhes fim? Morrer.. dormir: não mais.
Dizer que rematamos com um sono a angústia
E as mil pelejas naturais-herança do homem:
Morrer para dormir... é uma consumação
Que bem merece e desejamos com fervor.
Dormir... Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:
Pois quando livres do tumulto da existência,
No repouso da morte o sonho que tenhamos
Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita
Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.
Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,
O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,
Toda a lancinação do mal-prezado amor,
A insolência oficial, as dilações da lei,
Os doestos que dos nulos têm de suportar
O mérito paciente, quem o sofreria,
Quando alcançasse a mais perfeita quitação
Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,
Gemendo e suando sob a vida fatigante,
Se o receio de alguma coisa após a morte,
–Essa região desconhecida cujas raias
Jamais viajante algum atravessou de volta –
Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?
O pensamento assim nos acovarda, e assim
É que se cobre a tez normal da decisão
Com o tom pálido e enfermo da melancolia;
E desde que nos prendam tais cogitações,
Empresas de alto escopo e que bem alto planam
Desviam-se de rumo e cessam até mesmo
De se chamar ação.

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Mensagem por Alquimista em 27/4/2018, 02:18


Paraíso Perdido - John Milton

“Oh! que vergonha para a estirpe humana! Firme concórdia reina entre os demônios: E os homens, na esperança de alcançarem A ventura do Céu, vivem discordes, A racional essência desmentindo!”

“Reinar é o alvo da ambição mais nobre,
Inda que seja no profundo Inferno:
Reinar no Inferno preferir nos cumpre
À vileza de ser no Céu escravos.”

“O tirano por fim de nós aprenda
Que vencer só por força um inimigo
É somente vencê-lo por metade.”

“Coa previsão os males não se impedem,
E imaginados não afligem menos
Do que em sua verídica amargura.”

“Se a guerra devasta, a paz corrompe.”

“É melhor reinar no inferno do que servir no céu.”

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Mensagem por sombriobyte em 27/6/2019, 02:27


DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!

Divina Comédia de Dante Alighieri
Canto III - A porta do Inferno - Vestíbulo - Rio Aqueronte - Caronte

Trechos literários extraordinários C0


POR MIM SE VAI À CIDADE DOLENTE,
POR MIM SE VAI À ETERNA DOR ,
POR MIM SE VAI À PERDIDA GENTE.

JUSTIÇA MOVEU O MEU ALTO CRIADOR,
QUE ME FEZ COM O DIVINO PODER,
O SABER SUPREMO E O PRIMEIRO AMOR.

ANTES DE MIM COISA ALGUMA FOI CRIADA
EXCETO COISAS ETERNAS, E ETERNA EU DURO.
DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!

Estas palavras estavam escritas em tom escuro, no alto de um portal. Eu, assustado, confidenciei ao meu guia:

- Mestre, estas palavras são muito duras.

- Não tenhas medo - respondeu Virgílio, experiente - mas não sejas fraco! Aqui chegamos ao lugar, do qual antes te falei, onde encontraríamos as almas sofredoras que já perderam seu livre poder de arbítrio. Não temas, pois tu não és uma delas, tu ainda vives.

Em seguida, Virgílio segurou minha mão, sorriu para me dar confiança, e me guiou na direção daquele sinistro portal.

Logo que entrei ouvi gritos terríveis, suspiros e prantos que ecoavam pela escuridão sem estrelas. Os lamentos eram tão intensos que não me contive e chorei. Gritos de mágoa, brigas, queixas iradas em diversas línguas formavam um tumulto que tinha o som de uma ventania. Eu, com a cabeça já tomada de horror, perguntei:

- Mestre, quem são essas pessoas que sofrem tanto?

- Este é o destino daquelas almas que não procuraram fazer o bem divino, mas também não buscaram fazer o mal. - me respondeu o mestre. - Se misturam com aquele coro de anjos que não foram nem fiéis nem infiéis ao seu Deus. Tanto o céu quanto o inferno os rejeita.

- Mestre - continuei -, a que pena tão terrível estão esses coitados submetidos para que lamentem tanto?

- Te direi em poucas palavras. Estes espíritos não têm esperança de morte nem de salvação. O mundo não se lembrará deles, a misericórdia e a justiça os ignoram. Deixe-os. Só olha, e passa.

E então olhei e vi que as almas formavam uma grande multidão, correndo atrás de uma bandeira que nunca parava. Estavam todas nuas, expostas a picadas de enxames de vespas que as feriam em todo o corpo. O sangue escorria, junto com as lágrimas até os pés, onde vermes doentes ainda os roíam.

Quando olhei além dessa turba, vi uma outra grande multidão que esperava às margens de um grande rio.

- Quem são aqueles? - perguntei ao mestre.

- Tu saberás no seu devido tempo, quando tivermos chegado à orla triste do Aqueronte. - respondeu, secamente.

Temendo ter feito perguntas demais, fiquei calado até chegarmos às margens daquele rio de águas pantanosas e cinzentas.

Chegava um barco dirigido por um velho pálido, branco e de pêlos antigos. Ele gritava:

- Almas ruins, vim vos buscar para o castigo eterno! Abandonai toda a esperança de ver o céu outra vez, pois vou levar-vos às trevas eternas, ao fogo e ao gelo!

Quando ele me viu, gritou:

- E tu, alma vivente, te afasta desse meio pois aqui só vem morto! - Vendo que eu não me mexia, mais calmo, falou - Tu deves seguir para outro porto, onde um outro barco, maior, te dará transporte.

- Caronte, te irritas em vão! - intercedeu o mestre - Lá, onde se pode o que se quer, isto se quer, e não peças mais nada!

Caronte então se calou, mas pude ver que seus olhos vermelhos ainda ardiam de raiva. As almas, chorando amargamente, se amontoavam na orla e Caronte as embarcava, uma a uma, batendo nelas com o remo quando alguma hesitava. Depois seguiam, quebrando as ondas sujas rio Aqueronte, e antes de chegarem à outra margem, uma nova multidão já se formava deste lado.

Enquanto Virgílio me falava sobre as almas que atravessavam o rio, houve um grande terremoto, seguido por uma ventania que inundou o céu com um clarão avermelhado. O susto foi tão intenso que eu desmaiei e caí num sono profundo.

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Mensagem por sombriobyte em 27/6/2019, 02:49


Aproveitando o gancho, gostaria de tecer alguns comentários sobre a Divina Comédia que saiu há alguns na coleção "As maiores obras-primas da literatura", da editora Nova Cultural.

Eu não gostei, a tradução está em prosa, e não há aquelas valiosas notas de rodapé esclarecendo as milhares de referências que o Dante faz na sua obra às pessoas da época (convencionou-se não colocar notas de rodapé neste tipo de situação. E eu concordo com essa norma).

Não falta quem diga que as traduções da Nova Cultural são intoleráveis, embora essa coleção seja um caso particular. Pelo que acompanhei nas bancas, as traduções são em sua maioria muito antigas (há-as até portuguesas do século XIX), de modo que o custo de produção torne-se ainda mais baixo.

O volume dedicado a Goethe, com Fausto e Werther, eu não gostei do que vi. Mas quanto aos volumes de literatura brasileira, por exemplo Esaú e Jacó ou Memorial de Aires, de Machado, não tem erro.

O livro do Pirandello dessa coleção é imperdível, gosto bastante de Pirandello, acho-o um escritor um tanto esquecido atualmente. Eu tenho essa tradução e é razoável.

A tradução da Odisséia é em prosa, mas bastante fiel ao texto, razoável para conhecer a obra, mas Homero é muito mais que aquilo.

Já a Eneida (uma das obras literárias que mais gosto) do Odorico Mendes, quem quiser ir, que vá com Deus; é ilegível. E é mais fácil para um brasileiro comum ler o original em Latim...

Os Romances russos são traduzidos do Francês (...), a Metamorfose até eu traduzo melhor, os contos do Voltaire valem a pena, a tragédias de Shakespeare estão mal traduzidas, a Casa de Bonecas é traduzida do alemão (...).

Nada muito animador e a essas decepções juntam-se obras de segunda, terceira ou quinta categorias, incluindo uma assustadora procissão de romancistas ingleses do século XIX...

Afinal, o que a Dama das Camélias está fazendo entre Virgílio, Shakespeare e Balzac? Ou Raul Pompéia entre Dante, Dostoiévski e Goethe?

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Mensagem por sombriobyte em 27/6/2019, 02:52


Sobre as notas de rodapé.

É consenso de que elas atrapalham o desenvolvimento do texto, muitas vezes com informações que só são importantes para quem já sabe delas, ou outras vezes com informações completamente irrelevantes isso quando não mastigam o livro para o leitor. Notas apenas quando necessárias e para se referirem a algo exterior ao texto, por favor. Se o texto estiver com muitas notas, uma revisão seria salutar, ele está mal escrito...

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Mensagem por Siegfried em 27/6/2019, 15:05


A Dama das Camélias peça ou romance?

Acho as notas de rodapé essenciais - e detesto as edições que trazem todas no fim do capítulo ou do livro. Além do mais, não querendo ler a nota, é só pulá-la.

Saudações dumasianas.
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Mensagem por Necromante em 27/6/2019, 19:12


Sou a favor das notas de rodapé. Ao menos para aqueles que não conheçam as intimidades da política italiana do tempo de Dante.
Essa coleção, deixei de olhá-la desde aquela fraude: a velha tradução de Cyrano por Portocarrero foi atribuída a um não sei quem. Ivo Barroso escreveu um artigo indignado a respeito dessa trapalhada infame da Nova Cultural.
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Mensagem por Freud explica em 27/6/2019, 20:32


Notas de rodapé? Principalmente em Dante, elas são muito importante....
Ou será que algum de vocês conhecem todas aquelas figuras citadas no livro de maneiras várias de cabeça?

Eu imaginei que o objetivo da coleção da Nova Cultural seria trazer os grandes clássicos para mais perto do povo. E o povo (eu me incluo no meio deles) não sabe citar de cabeça o nome do papa da época de Dante.

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Mensagem por Alquimista em 28/6/2019, 00:07


De pior ou melhor (e o pior em Dante continua sendo de um nível superior), fazem parte da obra. Esse é apenas um exemplo; também são necessárias notas para quem não conheça, por exemplo, a poesia provençal (e não venham me dizer que aquele canto do purgatório é ruim).

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Mensagem por sombriobyte em 28/6/2019, 02:35


Gente, as críticas políticas de Dante na Divina Comédia são exatamente o que há de PIOR na maior obra da literatura moderna...

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Mensagem por sombriobyte em 28/6/2019, 02:37


Ainda sobre a Divina Comédia, adoro o uso da terza rima, que segue este esquema rímico:

a
b
a

b
c
b

c
d
c

etc.

A terza rima é mantida por toda a Divina Comédia. É utilizada em trechos de Orfeu de Monteverdi e, li ontem no livro de Lauro Machado Coelho sobre a ópera italiana após 1870, no Amleto, ópera com música e Faccio e libreto de Boito; o Fantasma fala em terza rima porque é um espírito...

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Mensagem por Siegfried em 28/6/2019, 12:37


Obra magnifica...
Eu recomendo a quem não leu.
Essa terceira rima é maravilhosa, isso é, quando bem traduzida!
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Mensagem por Lilith em 28/6/2019, 18:34


Eu acho a "Divina Comédia" bem chatinha, seja em prosa ou em poesia, português ou italiano. A coleção é até boa, gostei das traduções das obras francesas.
O lance com "A Dama das Camélias" provavelmente foi um equívoco que ocorre com frequência no mundo das literaturas: há Alexandre Dumas (Filho), autor da "Dama..." e o Alexandre Dumas (Pai), que escreveu os grandes "Memórias de um médico", "Os Três Mosqueteiros", "O Conde de Montecristo", etc. É isso.

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Mensagem por Lilith em 28/6/2019, 18:37


Existem duas editoras - a gaúcha L± e a Claret, que publicaram clássicos no formato pocket. Algumas traduções o próprio Claret refez.
Alguém conhece estes lançamentos?

Sombrio, tem uma editora que publicou a obra de Pirandello. O tradutor é um dos donos, e os livros tem a capa branca e as páginas tingidas de amarelo. Conhecem?

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Mensagem por sombriobyte em 28/6/2019, 18:56


A editora que você menciona é a Berlendis & Vertecchia, que divulgou a literatura italiana do século XX em boas edições.

Quanto aos clássicos em pocket, nada posso dizer sobre a Martin Claret, que não conheço. Mas a série da L± não me engana mais. São livros feitos sem o menor cuidado editorial, cheios de gralhas e omissões. Tive que devolver o "Memórias póstumas de Brás Cubas", que tinha comprado para usar com alunos, porque o texto estava completamente deturpado. É o famoso barato que sai caro...

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Mensagem por Trovador em 28/6/2019, 21:14


Ouvi falar nessa editora, a Berlendis e Vertecchi(a), e soube que lançaram várias obras italianas do século XX que ainda não haviam sido traduzidas para o português. Muitas delas interessantíssimas, segundo me contaram.

A Martin Claret é boa, mas às vezes dá problemas. Lembro, por exemplo, que a edição de O Príncipe está ótima, enquanto que a de Os sofrimentos do jovem Werther está horrível, com inúmeros erros de digitação. A edição de Os Lusíadas está boa também, mas a paginação não me agrada muito - algumas estrofes ficam divididas entre duas páginas.

Saudações editoriais.

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Mensagem por Trovador em 28/6/2019, 21:17


Eu realmente nunca entendi porque muitas pessoas falam mal dos livros da Ediouro, que são baratos e, na maioria das vezes, excelentes. Há uma Divina Comédia da Ediouro traduzida em verso por Xavier Pinheiro, com estudo introdutório de Otto Maria Carpeuax, e, o que é melhor, tal edição é bilíngue, português/ italiano. Convenhamos, é muito melhor comprar um livro desses do que essas porcarias que saem nas bancas. Comprar livro é igual a comprar cd de música clássica: num caso tem que olhar o regente, no outro o tradutor (a não ser que se leia no original).

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Mensagem por Trovador em 28/6/2019, 21:18


PS:
As opiniões de Otto Maria Carpeaux sobre musica são inúteis e infundadas. A Tradução em questão é excelente.

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Mensagem por Alquimista em 29/6/2019, 00:29


Eu pensei em não escrever, mas também pensei: uma a mais outra a menos, o que isto importa?

Minha relação com a literatura sobre música do Carpeaux, desde a primeira vista, foi sempre de achar que aquilo ali era uma brincadeira de mau gosto. Diferente da literatura que sempre, pelo menos, fez de bom gosto. Faz muito tempo que leio o que ele tem a dizer sobre literatura. Carpeaux foi um grande ensaísta. Tudo o que ele escreveu sobre música não tem a mínima graça, não vale nada. Isto aqui sim é que vale. Podem ter certeza.

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Mensagem por Alquimista em 29/6/2019, 00:30


Quanto à tradução de Xavier Pinheiro, creio que apesar de ter sido realizada ainda no século XIX, o trabalho deste baiano permanece muito interessante. Tenho um exemplar bilingue em grande formato com as famosas gravuras de Doré.

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Mensagem por sombriobyte em 29/6/2019, 02:11


Carpeaux é um mastodonte, suas opiniões sobre literatura também são datadas, velhas e desinteressantes. Eu sinceramente acho os textos dele chatos, tendenciosos e, o que é pior, saturados por aquele que foi o movimento mais terrível da história: a filologia alemã do século XIX...

Se alguém quiser ler um bom texto sobre literatura, que procure Ezra Pound, How to read e ABC of reading e não fique atrás desse germanófilo gagá.

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Mensagem por sombriobyte em 29/6/2019, 02:13


Eu vi uma Commedia da Mondadori, com as ilustrações do Botticelli, que é o livro mais bonito (e talvez o mais caro) que eu já vi na minha vida.

Mas aqui no Brasil nós estamos muito bem servidos de edições da obra mestra do Dante, há essa da Ediouro e uma da Editora 34,com tradução de Ítalo Eugênio Mauro que é muito boa também - na capa desta está uma das lâminas do Botticelli.

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Mensagem por sombriobyte em 29/6/2019, 02:15


A propósito, quem liga para a tradução quando se há o texto original ao lado?

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