Araguari, a bela do Triângulo Mineiro

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Mensagem por Alquimista em 5/3/2018, 05:53


O Caso dos Irmãos Naves

Os irmãos Naves e um dos maiores erros judiciários do país

Os jovens ficaram presos injustamente por mais de 8 anos.

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A centenária Araguari, no Triângulo Mineiro, foi cenário daquele que ficou conhecido como um dos mais graves erros judiciários do Brasil. Em 1937, no derradeiro mês de dezembro, dois irmãos (os Naves) começam a ser investigados pelo desaparecimento e morte de um comerciante local.

O rumoroso caso começa quando os irmãos Sebastião José Naves, à época com 32 anos, e Joaquim Naves Rosa, 25 anos, firmam sociedade com o primo, o mercador Benedito Pereira Caetano. Os três dividem o mesmo caminhão para executar a atividade diária de sustento : compram e revendem cereais.

Após algumas idas e vindas do mercado, o ambicioso Benedito, acreditando em possível alta das mercadorias, toma grandes empréstimos na praça. No entanto, repetidas quedas de preços começam a preocupar o comerciante, já então afundado em dívidas. Fazendo e refazendo contas, Benedito procura oferta e, em ato desesperado, vende o produto a valor baixo, inferior ao montante da dívida.

O apurado com a venda é insuficiente para fazer frente aos credores, conquanto somasse a polpuda quantia de 90 contos de réis.

Indeciso, com dívidas e com o bolso tilintando... Benedito se deslumbra com a possibilidade de livrar-se do poço sem fundo de cifras negativas em que se enfiou e delibera sua fuga na madrugada de 29 de novembro.

Os sócios, irmãos Naves, parceiros diários de labuta, dão conta do inesperado desaparecimento do amigo. Correm ao delegado, que imediatamente dá início às apurações.

As investigações corriam placidamente sob os cuidados do delegado Ismael Benedito do Nascimento, mas uma troca de comando altera o desfecho do caso. De fato, assume o cargo o tenente Francisco Vieira, que dá novos rumos ao inquérito.

Recém-empossado, Vieira convoca e reconvoca testemunhas, estuda, ouve boatos e conclui que os irmãos Naves eram os maiores interessados no sumiço e morte do primo Benedito.

Sem perder tempo, ordena a prisão de Joaquim e Sebastião. Os irmãos e demais familiares passam por sessões de tortura pelos beleguins do mão de ferro. O chefe de Polícia aponta os matadores e forma a opinião pública, certo da proximidade das confissões. Mas elas não surgem tão rapidamente.

De fato, só após 15 dias de tortura em um matagal afastado da cidade, a 12 de janeiro de 1938 o delegado afirma ter conseguido a "confissão particular" de Joaquim. A 3 de fevereiro é a vez do irmão assumir a culpa.

Pronunciados, os Naves têm como defensor o valente advogado João Alamy Filho, que ingressa com HC mostrando às autoridades o equívoco que era cometido. Baldadas as tentativas, a dupla tem prisão preventiva decretada.

Chega o dia do julgamento. O causídico ensaia o sibilante discurso. Com a palavra, sete dos seis jurados votam pela absolvição dos Naves. A promotoria não se dá por satisfeita e recorre, pedindo e conseguindo anular o julgamento.

Em nova plenária, confirma-se o placar favorável aos irmãos. O tribunal, no entanto, altera o veredito outra vez, com ajuda da polaca Constituição de 1937.

Nesse cenário adverso, os consanguíneos são condenados a 25 anos e 6 meses de reclusão, pena posteriormente reduzida para 16 anos.

Após 8 anos e 3 meses encarcerados, em agosto de 1946, Sebastião e Joaquim ganham liberdade condicional ante comportamento exemplar.

Mas já é tarde.

Joaquim foi acometido de longa e dolorosa doença e morre nos alvores da liberdade. O irmão sobrevivente, incansável, inicia sua busca para provar a inocência.

Boas notícias demoram a surgir, mas o Sol volta-lhe a brilhar no inverno de 1952, quando aparece, em lugar distante, vivinho da silva, o primo Benedito. Só então, 12 anos após acusações, é, enfim, reconhecida a inocência dos irmãos.

O processo, conhecido a partir daí como "O caso dos irmãos Naves", transforma-se em filme e livro.

O livro foi escrito pelo advogado dos rapazes, João Alamy Filho, e traz as principais peças dos autos. É nele que sabemos que, em 1953, uma revisão criminal inocenta a dupla e dá início ao processo de indenização, conferida apenas em 1960 aos herdeiros.

FONTE: http://www.migalhas.com.br/Quentes/17,MI152842,51045-Os+irmaos+Naves+e+um+dos+maiores+erros+judiciarios+do+pais


Última edição por Alquimista em 5/3/2018, 05:59, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Alquimista em 5/3/2018, 05:58


O Caso dos Irmão Naves, O FILME:

O filme (1967), baseado na obra de Alamy Filho e adaptado para o cinema por Jean-Claude Bernardet e Luís Sérgio Person, foi um sucesso na época.
Sebastião é interpretado por Raul Cortez; o irmão Joaquim é vivido por Juca de Oliveira; e, John Herbert está na pele do advogado João Alamy Filho.





O programa Linha Direta, da TV Globo, exibiu o caso de Araguari na série Justiça, que trazia casos policiais e judiciários conhecidos nacionalmente.


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Mensagem por Alquimista em 3/6/2018, 16:52


Conjunto Aurélio de Oliveira

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Rua Aurélio de Oliveira

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Uma das primeiras residências construídas no município, localizada em rua próxima a igreja Matriz.

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Praça Padre Nilo Tabuquini

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Foto de 1925 - Praça da Matriz, atual Praça Nilo Tabuquini, ponto de início de Araguari.

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https://portaldearaguari.blogspot.com/2008/09/araguari-em-dados-e-fotos.html

Sua história remonta às primeiras décadas dos anos de 1800. Brejo Alegre era o nome sede do arraial composto de algumas construções, dentre elas uma pequena capela, residências, poucos cômodos comerciais, além de inúmeras fazendas. No ano de 1843, por meio da Lei nº. 247, de 20 de julho, o arraial passou a ser Distrito de Sant’Ana do Rio das Velhas, sendo sua primeira distinção.

A denominação Freguesia foi alcançada em 1864, quando a Lei Provincial nº. 1195 de 06 de agosto, determinou a transferência da Paróquia de Sant’Ana para o Brejo Alegre.

A condição de “Vila” e o desmembramento territorial do município de Bagagem, atual Estrela do Sul, deu-se posteriormente, por intermédio da Lei Provincial nº. 2996, de 19 de outubro de 1882. A instalação oficial da Vila, verificou-se apenas em 31 de março de 1884, com a posse da primeira Câmara Municipal, o que efetivou sua emancipação política.

A Lei Provincial nº. 3591, de 28 de agosto de 1888, elevou-a à categoria de cidade com o nome de Araguary. Vários pesquisadores, tentaram explicar os motivos da alteração nominal, no entanto, nada foi comprovado documentalmente.

Aos poucos, foi delineando-se a localidade, agora com nova roupagem: cidade de Araguary. Antes do limiar do novo século, o município apresentava-se com simplicidade, a Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus da Cana Verde com seu estilo colonial; o cemitério situado ao fundo da Igreja; as casas de “telhas ao vento”, ou seja sem forração; e no centro da urbe, um córrego corria límpido, dividindo duas partes distintas do lugar, de um lado, segundo consta, dava-se o nome de Goiás, e do outro, de Minas, em alusão aos estados fronteiriços. O pequeno comércio era composto de uma padaria, uma sapataria, duas farmácias e algumas “vendas”.

Neste contexto, chegou à cidade os trilhos de ferro, que encurtava distâncias e propiciava quantitativo desenvolvimento. A Cia. Mogiana de Estrada de Ferro, primeira a ser implantada no município, em 1896, tendo como marco original o Estado de São Paulo, estabeleceu novo alento ao comércio local e regional, oportunizando um significativo aumento da população, o que gerou novas divisas econômicas para o município.

As primeiras décadas do século XX, foram marcadas por mudanças na parte central da cidade, decorridas pela efetivação do proposto traçado urbano, e também, pela instalação da Estrada de Ferro Goiás, no ano de 1906, que ligou o município com o Estado de Goiás, gerando novas levas de migrantes e imigrantes para a cidade, que era sinônimo de oportunidade.

Ao longo dos anos que se seguiram, o município foi suprindo seus serviços básicos à população e adequando-se às necessidades de cada época, transformando-se gradativamente na cidade que hoje conhecemos e amamos.

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Vista aérea da cidade

Araguari, cidade de Minas Gerais, situada em um grande chapadão, pertencente ao Circuito Turístico Triângulo Mineiro, rica em bens patrimoniais e em atrativos turísticos de belezas naturais, que se apresentam nas compiladas 128 cachoeiras e quedas d’água ao longo dos rios e lagos; na reserva do Bosque John Kennedy; nas matas encravadas em seu território composto de 2.741 km2 e em numerosas grutas e áreas de mata virgem com vegetação predominante do cerrado. Sem dúvida, este município é um convite a visitantes de todo o país.

O turismo de negócios e eventos são fortes atrativos da região, envolvendo economia e lazer. A cultura de seu povo baseia-se nas tradições, como o Congado, Folia de Reis, Carnaval e artesanato regional. Buscando aliar o antigo ao novo, os setores envolvidos com expressões culturais, motivam o resgate das manifestações artísticas, mostrando talentos locais, e apoiando todas as formas de arte.

Araguari, perpassa conduzindo a herança de seu passado controverso de glória, estagnação e progresso. Em cada era, um estilo, uma roupagem, mas sempre a mesma Araguari. Araguari que cativa, que encanta, que anseia por melhorias, mas se orgulha de ser o que é. Pacífica, aprazível, hospitaleira, enfim, lugar de gente boa, mineira, uai ...

MANIFESTAÇÕES CULTURAIS

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Escola de Samba Ventania

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Folia de Reis

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Apresentação de Congado - Paróquia Nossa Senhora do Rosário

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Artesanato local


Última edição por Alquimista em 3/6/2018, 16:58, editado 1 vez(es)

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Mensagem por Alquimista em 3/6/2018, 16:54


Hino de Araguari

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Mensagem por Alquimista em 3/6/2018, 17:45


Arquitetura

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Casarão do Padre Nilo

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Studio ''A''

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Residência antiga

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Casarão antigo

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Igreja do Rosário

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Centro de Araguari ao anoitecer

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Residência Nunes

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 16872158
Residência João Godoi recém-restaurada

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 18149338
Palacete

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 46057438
Casarão antigo

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 18149500
Residência antiga

http://mapio.net/pic/p-18149626/



Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 18148962
Bela residência

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 18200780
Casarão antigo

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 18149383
Residência antiga demolida

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 16869501
Telhado europeu

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 16872323
Castelinho da Tiradentes

Araguari, a bela do Triângulo Mineiro - Página 2 25484298
Casarão

http://mapio.net/pic/p-25484294/

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Mensagem por Alquimista em 21/2/2019, 00:44


Pioneirismo no Futebol Feminino

''Mocinhas de Araguari'' calçaram chuteiras para salvar a escola

Era década de 1950. Dona Isolina, diretora de uma escola municipal em Araguari, no Triângulo Mineiro, amargava as contas no vermelho. Para salvar as dívidas, pensou em organizar um jogo com renda revertida para a escola. O diretor de futebol Ney Montes sugeriu uma partida diferente, de vanguarda. Mulheres em campo certamente chamaria mais atenção.

A diretora reuniu 40 voluntárias para salvar o caixa escolar. No dia marcado, estádio lotado para ver a mulherada. Sucesso tamanho que a cidade vizinha, Uberlândia, quis repetir a partida. Foi preciso chamar a cavalaria para conter a torcida curiosa. Futebol de mulheres nunca tinha sido visto.

A notícia do interior foi para as páginas da revista O Cruzeiro, que as batizou de Mocinhas de Araguari. Era só o que faltava para as meninas virarem atração nacional. Excursionaram pelo Brasil, desfilaram em carro de bombeiros em Salvador e Belo Horizonte. Foram convidadas até para jogar no México. Na foto que abre este texto, as atletas vestem a camisa do Atlético Mineiro em um amistoso em 1959.

Porém, por força da lei, a sensação durou pouco. Um decreto proibia mulheres de praticar esportes coletivos por serem “violentos e perigosos para a anatomia feminina”. Os sonhos das pioneiras foram por água abaixo. Elas pediram para praticar na escola, só por diversão. Mas os pais proibiram.

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As jogadoras se reencontram em 2009 (foto: Teresa Cristina/Arquivo pessoal)

Hoje, as senhoras jogadoras de Araguari se lembram com saudade da época em que eram craques em fazer história. E, certamente orgulhosas, veem o Brasil ser festejado por ter a melhor jogadora de futebol do mundo por cinco anos consecutivos: Marta.

Da Redação do Almanaque Brasil



Pioneiras do esporte proibido: histórias do início do futebol feminino no Brasil

Do jogo solidário aos estádios lotados, torcidas eufóricas e desfiles: as meninas do Araguari Atlético Clube, do interior de Minas, até a proibição no fim da década de 1950

Por Lucas Papel
Araguari, MG


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Pioneiras do futebol feminino do Araguari Atlético Clube formaram dois times na primeira partida, em 19 de dezembro de 1958. No jogo, as meninas do Araguari bateram o Fluminense de Araguari por 2 a 1 (Foto: Antônio Gebhardt)

Ano era 1958. A Seleção, no embalo de Pelé, Garrincha e companhia, conquistava o primeiro título mundial na Suécia, com a goleada de 5 a 2 sobre os donos da casa. Mas a data também reservaria outro marco histórico: o início do futebol feminino nos moldes praticados oficialmente. Na expectativa de salvar da falência uma escola de Araguari, no Triângulo Mineiro, a diretora do grupo procurou os dirigentes do Araguari Atlético Clube para um fazer um jogo beneficente. Uma partida comum foi descartada. Então, foi sugerida uma exibição apenas com mulheres em campo. Deu certo. Surgia ali, talvez, o primeiro time feminino do Brasil.

O que era apenas solidariedade para o Grupo Escolar Visconde de Ouro Preto virou espetáculo e ultrapassou limites municipais, estaduais e só não saiu do país por questões políticas da época: "às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza". Antes de tal decreto-lei do Conselho Nacional de Desportos (CDN), as meninas com média de idade entre 15 e 16 anos – algumas mais novas, outras mais velhas – desfilaram a arte do futebol por quase um ano. Estádios lotados, torcidas eufóricas e muito respeito pelas pioneiras do futebol feminino no Brasil.

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Estádio Juca Ribeiro, em Uberlândia, recebeu o primeiro jogo fora de Araguari: sucesso de bilheteria (Foto: Revista O Cruzeiro/Reprodução)

– O presidente do clube sugeriu para a diretoria da escola na época, que fosse um futebol feminino. Mas precisava de mais pessoas e, então, foram em todas as escolas da cidade e perguntaram quem queria jogar. Achei a ideia bacana e fui no campo conferir. Foi feita uma seletiva para ver quem tinha mais aptidão. O primeiro jogo foi um sucesso total e continuamos jogando em várias cidades do Brasil – contou a ex-meio-campista Heloísa Rodrigues, 69 anos, que se comparava ao estilo de jogo de Kaká, na época.

A ideia do time foi do diretor do Araguari, Ney Montes, a pedido da diretora da escola, Isolina França. Na peneira, aproximadamente 40 meninas compareceram e foram escolhidas cerca de 25, o suficiente para colocar dois times em campo. Sob o comando do técnico Luiz Benjamim, do treinador Luiz Teixeira e do massagista José Firmino, o sucesso da primeira partida fez com que o elenco feminino viajasse pelo Brasil. A primeira cidade a ser visitada foi a vizinha Uberlândia, também no Triângulo Mineiro, quando no estádio Juca Ribeiro não cabia mais gente e o time ganhou projeção nacional, com cobertura de jornais importantes da época. Depois, passaram por Buriti Alegre-GO, Ituiutaba, Varginha, Goiânia, Belo Horizonte e Salvador.

– O futebol feminino era novidade, ainda mais pelo fato de que, naquela época, moça não se expunha, não colocava um short, ainda mais short curtinho. Nós éramos novinhas, bonitas e era uma recepção calorosa, a coisa mais linda do mundo. Era uma glória para nós – lembrou com largo sorriso a ex-ponta-esquerda Haidê Dália Dias, 71 anos, que contou ainda ter entrado no time por acaso. Segundo ela, um diretor a colocou para substituir uma das meninas no treino e, por ser rápida, não saiu mais do time.

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No estádio Independência, em Belo Horizonte, as meninas vestiram as camisas de Atlético-MG e América-MG em jogo preliminar em 1959 (Foto: Revista Manchete Esportiva/Reprodução)

A capitã do time era Zalfa Nader, atualmente com 71 anos. Por ser alta e impor respeito, recebeu a faixa de capitã do Araguari. Sobre as viagens com a delegação pelo Brasil – sempre acompanhadas por duas mães –, Zalfa lembra dos estádios cheios pelos jogos preliminares em que elas atuavam. O jogo no Independência, em Belo Horizonte, não sai da memória da capitã. Vestindo camisas de Atlético-MG e América-MG, as meninas de Araguari "procuraram enfeitar as jogadas, com dribles curtos, [...] chutinhos delicados como que não querendo magoar a pelota", relatou a Revista Manchete Esportiva, veiculada no dia 30 de maio de 1959.

– Às vezes, fazíamos preliminares de jogos masculinos e os estádios ficavam cheios não pelo masculino, mas pelo feminino. Tinha invasão de campo, o pessoal queria conhecer as meninas, todas novas, e naquela época era tudo novidade. Em Salvador, fizeram até um desfile conosco pelas ruas da cidade, com todo mundo aplaudindo. Em Belo Horizonte também foi um jogo muito especial, o estádio ficou lotado. Naquela época, Atlético-MG e América-MG eram rivais, as torcidas eram separadas porque tinha muita briga. Dividimos nosso time. Eu vesti a camisa do Atlético-MG e o restante das meninas, a do América-MG. Vencemos. Foi aquele show, todo mundo gritava, jogava paletó para cima, foi essa festa toda – contou Zalfa.

PRECONCEITO E PROIBIÇÃO

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Jornal Correio do Paraná de 13 de junho de 1959, fala da proibição do futebol feminino no Brasil pelo Conselho Nacional de Desportos (Foto: Correio do Paraná/Reprodução)

Mas nem tudo foram flores, beijos e paletós jogados para cima. As meninas do futebol de Araguari enfrentaram preconceito das freiras e das senhoras, dos próprios pais das jogadoras, até serem proibidas de jogar devido à volta do decreto-lei 3.199, de 4 de abril de 1941, do extinto Conselho Nacional de Desportos (CND).

– As freiras de Araguari não gostavam, naquela época era muito rigoroso. Algumas moças que estudavam no colégio, não aceitavam. Por isso, houve essa discriminação. Em Tupaciguara, elas não aceitaram a presença das moças, usar shortinho, essas coisas – disse a ex-ponta-esquerda Ormezinda Rodrigues, 75 anos, que defendeu o carinho e respeito dos dirigentes, treinadores e massagistas da época com as jogadoras.

Elas não desistiram e continuaram jogando, tanto que o convite para uma partida internacional chegou aos dirigentes do Araguari no final de 1959. Mas o sonho das jogadoras de disputar um jogo fora do Brasil parou pelo caminho. Assim como a existência do time, que acabou naquele ano. Haidê Dias lamentou o fato de ter sido impedida de fazer o que gostava.

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Zalfa Nader era a capitã do time feminino (Foto: Zalfa Nader/Arquivo Pessoal)

– Jogamos em várias cidades, vários estados. Tínhamos até uma proposta para jogar no México, lá elas tinham time. Aí veio a proibição. Eu achei muito ruim. Nós jogávamos por prazer, porque não ganhávamos nada. Quando íamos viajar, tínhamos hospedagem, refeições, tudo. Mas financeiramente, nada. A gente gostava, realmente – revelou.

Para Heloísa Rodrigues, o decreto de Getúlio Vargas resgatado no governo de Juscelino Kubitschek interrompeu muitas carreiras de sucesso daquele escrete araguarino.

– Eu lembro direitinho de um dos dirigentes do time falar quando eu tocava a bola: "Essa é uma verdadeira armadora". Isso eu lembro muito bem. Nós tínhamos excelentes jogadoras, todas novas. Acredito que uns cinco, seis anos depois, teríamos formado um time profissional excelente e que poderia virar uma seleção, para ir sempre renovando, igual aconteceu no masculino. Mas uma lei idiota impediu. Acho que era coisa do machismo da época – ponderou.

O time feminino do Araguari chegou ao fim. A prática do futebol por mulheres no Brasil também. O cenário só mudaria na década de 1970. Mas ficaram na lembrança muitas histórias e registros em jornais e revistas da época. Para manter a história viva das meninas do interior de Minas Gerais, a pesquisadora e filha de Ney Montes, Teresa Cristina, defende o fato de que elas são as pioneiras do futebol feminino por terem jogado em campos oficiais e por serem filiadas a um time da Federação Mineira de Futebol (FMF), diferente de outros registros da prática de futebol por mulheres no Brasil.

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Pioneiras receberam homenagem da cidade em passagem da Tocha Olímpica. Na foto, Teresa Cristina (pesquisadora), Zalfa (ex-zagueira), Haidê (ex-ponta-esquerda), Ormezinda (ex-ponta-esquerda) e Heloísa (ex-meia) (Foto: Teresa Cristina/Arquivo Pessoal)

– Existe uma polêmica em torno do tema. É claro que houve outros times durante o século, como em 1913, 1922. Mas foram apresentações em níveis circenses, festas de São João, coisas assim, mais isoladas. Não eram times que tinham preocupação profissional, como as meninas do Araguari tinham. Elas foram treinadas por técnico e tinha essa preocupação. Todos os jogos delas foram em campos com medidas e padrão profissionais. As jogadoras do Rio de Janeiro, que são citadas várias vezes por historiadores, jogavam em campos de várzea e não tinham um padrão. Em cima dessa proposta, elas podem ser consideradas as pioneiras – explicou.

ENCONTRO DE GERAÇÕES

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Zalfa (dir.) encontrou jogadora Marta em evento de futebol feminino no Palácio do Catete, no Rio de Janeiro, em 2014 (Foto: Teresa Cristina/Arquivo Pessoal)

As pioneiras de Araguari ainda esperam um possível encontro com a geração atual da Seleção feminina. Enquanto isso, aguardam o reconhecimento das autoridades do esporte. Até o momento, apenas as organizações não governamentais Redeh e Street Football World fizeram isso, com uma exibição no Palácio do Catete – antiga sede do Governo Federal –, no Rio de Janeiro, mesmo lugar onde foi decretada a lei de proibição do futebol feminino. Na ocasião, um breve encontro com a jogadora brasileira eleita cinco vezes melhor do mundo pela Fifa aconteceu. A capitã do Araguari, Zalfa, lembra com carinho do agradecimento de Marta pelo início do esporte feminino no Brasil.

– Em 2014, eu e Darci fomos ao Rio, uma semana antes da Copa do Mundo, para um evento no Palácio do Catete. Foi uma homenagem às pioneiras do futebol feminino. Fomos muito bem recebidas, aplaudidas. Foi muito bom, a Marta estava lá também. Lembro que ela falou muito pouco, porque tinha que pegar um voo logo depois, mas ela disse que foi um prazer conhecer as pioneiras e que foi por nós que o futebol feminino teve um incentivo – contou Zalfa.

OURO OLÍMPICO

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Seleção brasileira feminina inicia busca pelo ouro olímpico nesta quarta-feira (Foto: CBF)

Marta se prepara com as meninas da Seleção para buscar o ouro olímpico inédito, agora em casa. A campanha pelo lugar mais alto do pódio começa contra a China, nesta quarta-feira, às 16h, no Engenhão, o que desperta ainda mais as lembranças das pioneiras de Araguari, sempre na torcida.

– Passa um filme na cabeça, poderia ser eu que estivesse jogando. Vibro demais, posso estar sozinha que faço muita torcida. Fez parte da vida da gente, foi muito bom. Eu gosto muito de futebol, assisto aos jogos Brasil masculino e feminino até hoje. Eu quase morro – revelou Haidê.

A companheira de time, Ormezinda, também ecoa o grito na torcida pelas meninas do Brasil. Com escalação na ponta da língua, a ex-ponta-esquerda garante que não vai perder nenhuma partida.

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Goleira Eleuza foi elogiada por jornalista em jogo no Independência (Foto: Revista Manchete Esportiva/Reprodução)

– Claro que vou assistir. Eu acho será uma glória para nós se elas conseguirem esse ouro. Mesmo se não conseguirem, elas estão representando nosso país. Eu gosto das moças que jogam: da Marta, da Cristiane, da Formiga, da goleira Bárbara. Parece que essa seleção tem meninas mais novas, mas não vou perder os jogos delas de forma alguma – disse.

Mas também fica o pesar das pioneiras pelo pouco incentivo do futebol feminino até os dias atuais. No mesmo tom do técnico da seleção feminina Vadão, que afirmou não acreditar em "milagre" em relação à modalidade no país mesmo em caso de conquista do ouro olímpico, Heloísa Rodrigues analisa que a Seleção poderia ter outras histórias para contar além do "quase", se tivesse incentivo.

– Eu vi uma entrevista da Marta recentemente e ela disse que até hoje o Brasil não valorizou o futebol feminino. Realmente, temos vários times jogando, mas nenhum se sobressai no país. Quando uma atleta está melhor, ela sai para o exterior. Se o Brasil valorizasse mais, como a Marta é valorizada na Suécia, teríamos uma seleção excelente. Nossa seleção é boa, mas chega em uma final e não dá conta, acho que é pelo fato de treinar pouco e pela falta de valorização – analisou.

SAUDADE

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Time feminino extinto em 1959 deixa saudade e busca reconhecimento como primeira equipe oficial (Foto: Arquivo Família Montes)

Pela história passada, fica a saudade. Algumas mudaram do interior de Minas Gerais, outras seguiram na cidade. Nenhuma delas seguiu carreira no futebol. Mas a marca de ser talvez o primeiro time de futebol feminino do país dá orgulho para as meninas de Araguari quase seis décadas depois.

– Nos separamos, cada uma foi viver a sua vida, algumas foram embora da cidade. Quando a gente pode, reúne uma turma boa. Aí coloca o uniforme, só não pode ser com shortinho (risos). O início do futebol feminino foi conosco e ficamos muito satisfeitas dessa história levar nosso nome, nosso trabalho - contou Haidê Dias.

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Ney Montes foi o idealizador do time feminino de Araguari e recebeu elogios pela conduta com todas as jogadoras (Foto: Arquivo Família Montes)

Também com saudade da época, Heloísa lembrou com carinho das pessoas envolvidas, das colegas de time aos dirigentes da época. Ao fim, agradeceu a pessoa de Ney Montes, pela criação da equipe.

– Tenho muita saudade desse tempo, foi muito bom, divertido, uma turma muito boa, muito respeitosa da parte dos treinadores e diretores, Ney Montes, que formou o time. Era uma pessoa muito boa, respeitosa, íntegra, nos tratava muito bem e com muita educação – finalizou.

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Mensagem por Alquimista em 24/2/2019, 04:07


Pioneirismo no uso de TV a Cabo

Advogado e apresentador de TV, o araguarino Ronaldo Lemos é um dos principais criadores do Marco Civil da Internet

Confira a entrevista exclusiva com Ronaldo Lemos, que, além de todos os predicados mencionados, acaba de ser nomeado pelo Fórum Econômico Mundial, realizado em Davos, na Suíça, como um dos Jovens Líderes Globais (Young Global Leaders).

CORREIO DE UBERLÂNDIA – Quais são as suas lembranças sobre a infância e a adolescência passadas em Araguari?

RONALDO LEMOS – São ótimas. Foi uma infância típica de cidade de interior, com algumas diferenças. Uma delas é que tinha muitas crianças brincando com os primeiros computadores antigos na cidade. A outra diferença é a chegada prematura da TV a cabo. Araguari foi escolhida pelo Ministério das Comunicações para ser uma das primeiras cidades do Brasil a receber um projeto experimental de TV a cabo. Isso mudou o perfil da minha geração. Lembro de assistir à Guerra do Golfo pela CNN em 1990, algo que nem as redações dos jornais em São Paulo tinham na época. Isso mudou a minha vida e da minha geração. Me mostrou que a tecnologia e o acesso à informação podem transformar a vida das pessoas.

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